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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Kiki de Montparnasse - Catel & Bocquet


"Kiki de Montparnasse" de Catel e Bocquet é um livro de quadrinhos que conta a história de Alice Prin (1901-1953), que viveu num dos períodos mais férteis de Paris, cercada de artistas de primeira linha, que além de compor o seu círculo de amizades, com eles interagia, posando, cantando, pintando, sendo fotografada e filmada.

Para quem não é lá muito chegado em quadrinhos, esqueça! Kiki não é apenas uma história em quadrinhos. Trata-se de uma obra que fez um estudo profundo sobre sua vida, com bibliogafia ao final, além de uma breve biografia das pessoas para lá de especiais, e uma pequena biografia da própria Kiki.

Quem assistiu ao filme "Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, que hoje concorre ao Oscar, terá ali a oportunidade de se deparar com alguns dos personagens que tanto no filme como no livro nos deixam com um desejo de 'quero mais'. Abaixo um vídeo feito nos anos 20 por Man Ray e Fernand Léger, época do Surrealismo, com experimentos nada convencionais.


No livro você vai se interessar por outros personagens daquele período como Chaïm Sutine, Amadeo Modigliani, Moïse Kisling, Fujita Tsuguharu, Henri-Pierre Roché, Man Ray, Marie Vassilieff, Pablo Picasso, Tristan Tzara, Robert Desnos, André Breton, Marcel Duchamp, Ivan Mosjoukine, Jean Cocteau, Lee Miller, Henri Broca, Ernest Hemingway e outros. 

Num dos trechos do livro há a reprodução do período em que Kiki lançou sua biografia. Quem se interessasse em comprar o livro, além do autógrafo, ganhava também um beijo da Kiki. A fila para obter a obra foi imensa. Ernest Hemingway fez o prefácio do livro, logo ele que era avesso a isso e que além da obra de Kiki, somente uma outra teve esse privilégio em toda sua vida.

De cara me interessei pelas fotografias do americano Man Ray, com quem Kiki viveu um bom período de sua vida. Um dos livros de Georges Bataille que tenho há anos, "A História do Olho", contém uma capa altamente erótica e somente após buscar conhecer mais fotos de Man Ray é que fiquei sabendo ser ele o seu autor.

Kiki, em foto de Man Ray "Le Violon De'Ingres"
Além de Man Ray, que a fotografou e filmou, vários pintores daquele período também retrataram Kiki, que posteriormente chegou também, embora sem pretensões, a pintar, fotografar, e até a cantar, inclusive gravando discos. Fora do círculo de arte de Paris Kiki não era lá vista com bons olhos, passando mesmo por prostituta. A forma de se expressar era tão diferente para os padrões de então que moradores de outras regiões diziam que para um parisiense qualquer coisa era arte.

O livro em quadrinhos "Kiki de Montparnasse" não é apenas um livro, nem apenas um livro em quadrinhos, é o seu passaporte para um mundo fantástico, com personagens cuja arte sobreviveram até hoje. Duvido que após ler Kiki você não terá vontade de pesquisar um pouco mais.

Joel dos Santos Leitão, 26 de Fevereiro de 2011.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Hora da Estrela - Clarice Lispector


Finalmente li um livro da Clarice Lispector.

Estava à toa na livraria (que não merece ser citada) sem encontrar um livro que me instigasse. Daí vi um livrinho pequeno de 87 páginas da Clarice, comecei a ler sobre o que se tratava e me surpreendi com a informação de que teria sido o último livro escrito por ela antes de morrer.

E mais. Diz a orelha do livro que a Clarice não queria ser identificada como sua autora e até teria criado um falso autor, um tal de Rodrigo S.M..

Não vou dizer sobre o que se trata o livro. Isso tem por aí aos montes, basta pesquisar. Mas o que posso dizer é que devorei o livro em poucas horas, como se ele não pudesse sair das minhas mãos enquanto não esgotada a leitura.

Não é uma leitura simples, fácil, mas também não é uma leitura inacessível, daquelas chatas. É uma leitura inteligente, instigante, que te deixa com vontade de conhecer melhor a Clarice. O começo me irritou um pouco, pois eu queria que a história fosse logo contada e as divagações não terminavam. Mas eram importantes, pois são parte de um estilo delicioso e único de escrita.

Após ler "A Hora da Estrela" também li um livro só de entrevistas da Clarice: "Encontros", onde há até uma fantástica entrevista dela para o Pasquim em 1974, com participação de Ziraldo, Ivan Lessa, Sérgio Augusto, Olga Savary e Nélida Piñon, a quem Clarice afirma admirar.

Ela se recusa a citar suas possíveis influências literárias - para não cometer injustiças - senão uma ou duas, como "O Lobo da Estepe", de Herman Hesse e "Crime e Castigo" de Dostoiévski.

Pouco se importava com a Academia Brasileira de Letras (A Bastilha), que na época não aceitava mulheres escritoras; escrevia com a máquina de escrever nas pernas, ao mesmo tempo em que cuidava e dava atenção aos filhos; tomava muita coca-cola; nasceu na Ucrânia e veio ao Brasil com 2 meses; tomava muita coca-cola; escreveu uns 4 ou 5 livros infantis (leia e substitua os enlatados que dá ao seu filho); tomava muita coca-cola; foi pintada por De Chirico; tomava muita coca-cola; e dizia ser acusada pelos críticos de ser hermética. E aí aprendi mais uma palavra.

Joel dos Santos Leitão, 24 de Fevereiro de 2012.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Anna Prem - Restaurante Lactovegetariano


O Restaurante "Anna Prem", que fica em frente ao Parque da Aclimação, é da linha 'lactovegetariano', ou seja, não utiliza carnes e ovos para o preparo dos deliciosos pratos, mas inclui os derivados do leite.

A Lanchonete, embaixo do Restaurante, oferece também produtos orgânicos


A comida é deliciosa e o frequento há mais de dois anos, praticamente desde a inauguração, ficando cada vez mais surpreso com a variedade de comida saudável e saborosa, pois não fosse assim, tenho dúvidas se voltaria, por mais saudável que seja.

A entrada no piso superior ainda lembra motivos indianos

Quando começou o 'Anna Prem' era um restaurante com forte pegada de comida indiana, com  6 pratos 'à la carte' que ficavam expostos naquela bancada à esquerda. Você tinha a oportunidade de ver os pratos e era difícil escolher, pois eram muito belos e com delicioso aroma.

A mesa ainda estava sendo montada quando tirei as fotos

Foi então que alteraram a forma de oferecer aos pratos com a possibilidade de Buffet, ou seja, você paga um valor fixo, que durante a semana não passa de R$21,00, e aos finais de semana em torno de R$26,00, e come à vontade, podendo repetir quantas vezes quiser, claro, sem desperdício. E a vantagem é que aqueles deliciosos pratos que ficavam expostos 'à la carte' agora estão todos ali à disposição em dias alternados.

A maioria dos alimentos não é orgânica, mas aos poucos eles ganham espaço

Alguns dos pratos são elaborados com alimentos orgânicos, como nesse caso da Rúcula e da Alface, que recebem uma indicação específica com a informação. Quem tem preferência por produtos orgânicos pode adquiri-los também na lanchonete, ou bistrô, na parte inferior do restaurante

Vista parcial da parte interna
Outra opção do restaurante é o local para fazer sua refeição, que pode ser tanto dentro da casa, como na parte de fora.

A parte externa, onde sempre prefiro almoçar

Almoçar na parte externa é uma experiência única. Além de desfrutar do som de uma fonte de água que fica ao fundo, você pode ter algumas surpresas como a que tive ontem. Lá no fundo do quintal há uma árvore, e enquanto eu almoçava podia observar dois pássaros. Um deles, no chão, se refrescava do calor abaixando o bico no chão para alcançar a água. Outro deles, um pica-pau, dava bicadas na árvore fazendo uma sujeira danada no chão.


A cena, inusitada, fez com que eu e outros clientes nos olhássemos sorrindo, em silêncio, como querendo eternizar aquele momento. Eu era obrigado a dar uma garfada na comida e virar a cabeça à esquerda para não perder nossos amiguinhos que nada cobraram por seu show.

Esse  prato é chamado de "Bacalhau"

Se no sábado você pode se deparar com a "feijoada", às sextas-feiras pode ser que você encontre um delicioso "bacalhau", que na verdade é uma imitação do tradicional prato com batatas, pimentões, azeitonas, mas no lugar do peixe a soja, bem temperado e saboroso.

A mesa de doces (estava sendo montada)

Mas se nada é perfeito nessa vida, claro que também o "Anna Prem" não seria, pois essa mesa de sobremesa é incluída no valor da refeição, ou seja, você é tentado a cometer o pecado da gula após se deliciar com a refeição. Além dos doces, há também frutas diariamente. Essa sobremesa no rodapé da foto é o 'mousse de limão', meu predileto, mas tenho conseguido resistir à tentação.

Tenho uma única sugestão de melhoria ao "Anna Prem", que consiste em aperfeiçoar o serviço em seu caixa. Os funcionários, todos, sem exceção, sempre se enrolam com a máquina do cartão de crédito, ocorrem problemas com a via do cliente, não conseguem tirar nota fiscal paulista de imediato, enfim, presenciei isso já algumas vezes e é desagradável. Eu mesmo cheguei a ficar devendo e ter que pagar na refeição de outro dia. Também está em falta o cartão fidelidade, que após 10 refeições te dá direito a uma gratuita. Isso é algo que importa aos clientes.

A entrada do Parque da Aclimação

Caso você perca a linha e coma mais do que o necessário, não se preocupe. Bem em frente ao "Anna Prem" está localizado o Parque da Aclimação, onde você pode dar algumas voltas caminhando para que a digestão seja bem feita.

O restaurante "Anna Prem" fica na cidade de São Paulo-SP, na Rua Muniz de Souza, 1170, telefones (11) 3208-7552 e 3208-7501, pertinho da Av. Paulista. Quem sabe não nos encontramos por lá?

Joel dos Santos Leitão, 10 de Fevereiro de 2012.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Assessoria Esportiva é necessário?


Será mesmo que é necessário correr com apoio de uma Assessoria Esportiva (AE)?

Aviso desde já que acho temerárias as respostas afirmativas, tanto quanto as negativas. Explico. Cada corredor tem que se conhecer suficientemente bem para perceber se precisa dum estímulo externo, ou se consegue encarar os desafios por conta própria.

Isso significa que é mais importante a frase socrática 'conhece-te a ti mesmo' do que todas as demais conjecturas acerca da imprescindibilidade de treinar com um preparador físico e acompanhado de um bando de corredores vestidos com camiseta da mesma cor.

Se você vai correr uma Maratona, tem que saber que é importante fazer ao menos dois treinos acima dos 33km, e que ainda assim há divergências entre os preparadores. Claro que se o objetivo for uma Ultramaratona ou um Ironman os treinos também terão que ter outra intensidade, e isso independe de uma AE.

Para mim, por exemplo, AEs não funcionam. O que, por evidente, não significa que sejam um mal, pois estou inserido num grupo determinado de corredores predispostos a treinar por conta própria. Já para outros colegas, elas são essenciais, e talvez nem conseguissem sair de casa sem receber a planilha de treinos.

Não sou melhor nem pior do que quem corre em AEs. O fato é que temos que nos conhecer. Ao longo de meus 4,5 anos de corrida fiquei 1 mês numa AE, e 6 meses em outra. E já fiz vários treinos com atletas que também correm sozinhos, havendo críticas muito parecidas com as que tenho.

Quando me preparava (sozinho) para a minha primeira Maratona comecei a sentir dores na sola dos pés e procurei 3 médicos. O primeiro, que logo descartei, me mandou fazer um alongamento, e percebendo como eu errava no exercício sentenciou: "Então você quer correr uma Maratona? Pois trate contratar uma AE, senão jamais você correrá uma Maratona..."

Enfim, será que uma AE corrigiria o meu erro de alongamento? Alguns dirão que sim, mas o fato é que à partir do momento em que há uma verdadeira massificação, ou exagerando, à partir do momento em que corredores são tratados como gado, as chances de pequenos desvios na prática dos exercícios sejam corrigidos é mínima.

Uma das reclamações mais comuns é que os preparadores das AEs não retornam emails, não dão conta de que determinados treinos fogem à realidade do atleta, e aplicam atividades em comum para pessoas únicas, com necessidades diferenciadas. "Ora, que contrate um 'personal' então!" - Sei que você pode ter pensado assim, mas será que não pode haver um meio termo? Ou somos gado, ou precisamos dum 'personal'?! Hummmm...

Já vi o caso da AE que te aceita com a missão de te treinar para uma Maratona faltando apenas 2 meses antes da prova. Evidente que não é preciso ser um especialista para saber que isso é impossível e que ele apenas quer seu dinheiro.

Outra AE te estimula a correr uma prova de proporções acima da média, uma Ultramaratona, dizendo que vai te dar todo o apoio, inclusive com a viagem, mas quando está chegando o grande dia diz que a esposa acha que 'é besteira fazer a viagem' apenas para acompanhar um único atleta, tendo em vista que outros que iriam correr desistiram...

Tudo bem, Joel. Você já mostrou que possui suas críticas às AEs, mas como é correr sozinho? Como isso é possível? Para quem já corre sozinho o que vou falar à partir de agora é chover no molhado, mas vamos lá.

Em primeiro lugar é preciso ter disciplina. Em outras palavras, é preciso estar a fim. É preciso querer treinar. Porque sem essa premissa básica, nem com AE a coisa anda. Ao menos é assim que funciona comigo. Quando estou disciplinado e fazendo jus ao título desse blog as coisas fluem naturalmente, e aí correr passa a ser um estilo de vida, muito mais do que um modismo ou uma necessidade imediatista.

Sou leitor assíduo de diversas revistas de corrida e já vi de tudo um pouco em várias delas. Às vezes xingo, me divirto, acho a matéria batida, mas aprendo muito lendo as revistas "Contra-Relógio", "O2", "Corredores SA", "Runner's", "Finisher" e "WRun", sem contar outras como "Tri Sport" e "Go Outside".

Além disso leio muitos livros de corrida, e aqui mesmo no blog há várias sugestões aí na lateral direita. Mas um grande apoio é o dado pelos amigos Twitters'run, grupo informal de corredores que se comunicam diariamente no Twitter. A troca de ideias é uma grande fonte de informações para treinar sozinho.

E se você tiver afinidade com algum corredor que treina a valer, aí sim aprenderá muito. Experimente por lá no twitter: "O que vocês acham disso?" Ou ainda: "Acham que tal tênis é bom?" - Pronto, pode ter certeza que choverão respostas e aí caberá a você analisá-las com critério e ponderá-las.

Nem adianta os defensores das AE me dizerem que um técnico profissional formado em educação física é uma fonte melhor do que uma rede social. Digo que isso é muito relativo. Com a quantidade de informações que leio, passou a ser difícil, por exemplo, aceitar fazer alongamento antes de correr. A 'Contra-Relógio' foi pioneira nessa discussão e ainda vejo com reticências quem obriga o corredores a alongar sem qualquer conversa sobre a importância ou não do alongamento antes da corrida.

E quando surgiu a discussão sobre correr descalço? Eu já havia lido muita coisa à respeito, e ainda via preparadores físicos, que só vivem disso, me dizerem que era um absurdo. Hoje muitos deles escrevem por aí que não é tão absurdo assim e que a corrida descalço corrige a pisada naturalmente, guardados os cuidados que a migração exige.

Essa falta de atualização de algumas AEs e seus profissionais decorre da sensação de que a quantidade de corredores exige resposta rápida e que assim não dá para individualizar e tratar de assuntos tão 'específicos'. Será?!

Evidente que sou tendencioso na resposta, mas é porque estou tratando do meu caso concreto. Tenho diversos amigos que adoram suas AEs, tendo um grande respeito por seus treinadores. É o caso da jornalista Yara Achôa, por exemplo, que sempre que surge essa discussão defende sua AE. Como também ocorre com o Twitters'run Fabiano Paixão, que tem a AE como algo importante para seus treinos.

Eu mesmo, quando me preparava para a Supermaratona de Rio Grande, achava bom ter uma AE e não ter que me preocupar com planilhas. Mas também adorei treinar para a Ultra Solo de Bertioga-Maresias sem ter que cumprir planilha e respeitando meus instintos.

Já George Volpão, do Paraná, conhecido corredor de duros desafios de montanhas, além de correr Maratonas, sempre correu por conta própria e nem pensa em AE.

Mas antes de sair por aí blasfemando contra as AEs, ou mesmo antes de dizer que treinar por conta própria é irreal, saiba que cada corredor, seja amador ou profissional, possui suas próprias características físicas e principalmente psicológicas, e que a decisão que hoje é boa, pode ser que amanhã mude.

Joel dos Santos Leitão, 09 de Fevereiro de 2012.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Teatro: "Hell", com Bárbara Paz


Quando vi a peça em cartaz no Teatro Eva Herz, que fica dentro da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, com a foto da atriz Bárbara Paz, e direção de Héctor Babenco, nem titubeei. Me dirigi à bilheteria e comprei os ingressos para a semana seguinte. Primeiro porque o lugar é pequeno e aconchegante - sempre estou na Livraria Cultura. Segundo porque gosto da Bárbara Paz.

Bárbara Paz e Paulo Azevedo


Foi então que resolvi me interessar pelo tema da peça. Por qual motivo esse nome "Hell"? E aí que descobri o livro homônimo da escritora francesa Lolita Pille: "Hell - Paris - 75016", dei uma olhada na contracapa e me desanimei um pouco. Além da foto da escritora, há no livro a frase: "Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis; da pior espécie. Meu credo: seja bela e consumista." E na orelha do livro a descrição de Hell e suas amigas: "(...) elas tem um cartão de crédito no lugar do cérebro, um aspirador no lugar do nariz - e no lugar do coração um vazio."
Bárbara Paz e Hector Babenco

Mas tive uma daquelas conversas internas: "Sem preconceito, Joel. Compre o livro para entender melhor a história." Posso dizer que em dois dias li as 205 páginas e uma coisa me atormentava e me deixava curioso: "Como será isso no teatro?" "Como é que a Bárbara Paz vai representar essa personagem tão medíocre, tão vazia, mas ao mesmo tempo tão forte e tão intensa?"

E minhas dúvidas se desvaneceram no último domingo, 05 de fevereiro, quando às 19h fui assistir a apresentação. Do meu lado direito sentou a minha esposa, e do esquerdo a dramaturga Maria Adelaide Amaral. Na fileira de trás sentou a ex-VJ da MTV Didi Wagner. Logo pensei comigo: "se a Maria Adelaide Amaral sentou ao meu lado significa que esse lugar é bom. Vou sempre escolher essa localização."

O Livro
De cara se percebe que Bárbara Paz, embora divida algumas cenas com o ator Paulo Azevedo, representa praticamente um monólogo. É impressionante como ela conseguiu incorporar a personagem Hell, com suas falas escorreitas, como se a própria escritora se dirigisse aos leitores, segurando a plateia pelos 75 minutos de apresentação.

Para você ter uma ideia, minha esposa, que dorme em qualquer lugar, seja cinema, teatro, enfim, ficou acordada durante o tempo todo.

Bárbara Paz não precisaria de cenário (que restringe-se ao quarto com roupas de grife), nem de iluminação, nem de trilha sonora. Até agora tenho dúvidas se não presenciamos uma verdadeira tomada de corpo em pleno teatro. Apenas não sei como os espíritas explicariam isso. Mas o fato é que Bárbara Paz deve ter ficado no camarim, e Lolita Pille, ou Hell, subiu ao palco e fumou um cigarro atrás do outro, sem deixá-los apagar por um segundo sequer.


Mas eu disse que nem precisava de iluminação. Mas teve. E me chamou a atenção à beça, pois na minha singela opinião de expectador leigo que sou, o sujeito que controlou as luzes fez um papel singular. Suas 'tomadas' foram espetaculares. Eu cheguei a exclamar comigo em determinadas cenas: "Caraca!" - O responsável: Beto Bruel.

Luz daqui, luz dali, e Bárbara Paz intensa, além de linda, mostrando todo o seu profissionalismo para representar também o drama amoroso de Hell, que permeia a história e confere à atriz a chance de mostrar tudo o que sabe.

E quando a apresentação chegou ao fim, enquanto em pé aplaudíamos os atores, era visível que Bárbara Paz chorava, sem saber o que era naquele momento, se Bárbara Paz ou Hell - fato que somente confirma as minhas suspeitas de evento sobrenatural na noite de 05 de fevereiro de 2012. E se isso não ocorreu, somente tamanho talento e intensidade explicariam as lágrimas.

Se você, assim como eu, não é lá grande frequentador de teatro, pois às vezes quebra a cara com bons atores representando personagens sem graça, com falas batidas e que caem no senso comum, dê a si mesmo a oportunidade de assistir "Hell". Você não precisa fazer como eu e ler o livro, embora seja interessante conhecer também essa espécie de autobiografia que representa bem os (pequenos) valores da sociedade em que vivemos, independentemente da quantidade de dinheiro que se tem no bolso.

Joel dos Santos Leitão, 07 de Fevereiro de 2012.

PS.1: Descobri que também há o filme "Hell".

PS.2: Já no final da apresentação uma chave caiu do meu bolso no chão. Fui tatear com o tênis e... putz! Pisei no pé da Maria Adelaide Amaral. Pedi desculpas baixinho e ela acenou com a mão sem tirar o olho da Bárbara Paz. Foi mal, Maria Adelaide, desculpe!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"O Bobo do Rei"... e o menino simples


Nada planejado. Estava de bobeira na Livraria Cultura do Conjunto Nacional quando resolvi ver o horário da peça infantil "O Bobo do Rei", inspirada livremente na obra "O Rei Lear", de William Shakeaspeare, que está em cartaz dentro da livraria, no Teatro Eva Herz em curta temporada.

Na verdade eu sabia que a peça estava em cartaz, mas não havia adquirido o ingresso, não tinha certeza do horário, e não sabia se ainda havia algum disponível, mas para minha sorte uma fileira inteira estava livre, pois os convidados teriam desistido - ou algo do tipo, e a peça começaria em 20 minutos. Ufa!!

Conversei com meu sobrinho que topou, e lá fomos nós buscar o resto da turma para assistir a ótima apresentação da "Cia. Vagalum Tum Tum", com os atores Anderson Spada, Davi Taiu, Erickson Almeida, Tereza Gontijo e Val Pires, com direção de Angelo Brandini, numa peça divertida de aproximadamente 60 minutos, que deixa as crianças e todos os demais entretidos com a brincadeira envolvente.

Todos envolvidos com a peça são extremamente solícitos e educados, desde a bilheteria até a recepção na entrada do teatro, que fica ao lado do setor de Filosofia da livraria.


E foi quando eu estava na fila para entrada do teatro que percebi um menino negrinho, de camiseta branca suja em número bem maior que o seu manequim, calção também folgado, calçando um chinelo imitação do Havaianas, em trajes tão simples que destoava do restante dos frequentadores.

Ele estava quietinho, encostado numa mesa onde ficam expostos livros, cds e dvds relacionados com as peças que estão em cartaz no teatro, e ali ficou olhando as pessoas, curioso, olhando para dentro da sala, imaginando o que ali se passava.

Quando passei por ele lhe dei uma olhada, e ele soltou a pergunta:

- Tio, o que tá acontecendo aí dentro? - o olhar era da curiosidade típica das crianças.

- É uma peça de teatro - respondi - haverá uma apresentação - complementei.

- Quanto tempo demora, tio?! - perguntou ele.

- Uma hora.

Ele balançou a cabeça agradecendo, e quando passei pelo rapaz da livraria que recolhe os ingressos comentei baixinho que 'bem que podiam deixar o menino entrar e assistir também'.

Pensei em dar meu ingresso a ele, mas acabei não fazendo, pois estava com meu sobrinho. Pensei que ele acharia estranho eu convidá-lo e não entrar. Já sentado, eu olhava para o menino lá fora, na mesma posição, até que fecharam completamente a porta e a peça começou, e ainda fiquei imaginando como seria legal se ele pudesse assistir.

Fiquei curioso em saber como ele se comportaria, o que acharia da peça. Será que acharia muito infantil para seu tamanho? Será que acharia esquisito? Será que ele tinha pai, mãe e irmãos? E se não tivesse pai, como enxergaria a relação do Rei Lear com as filhas? 'Caramba, Sheakespeare causando até hoje', pensei com meus botões.

Meu sobrinho e minha mãe já davam gargalhadas com a apresentação. A esposa dormia ao meu lado, cansada por tê-la feito acordar cedo. Prestava atenção em tudo isso quando então vi na minha fileira o menino sentar na última cadeira do canto. Me olhou, virou para frente e prestou atenção na peça. Tive a impressão que me viu, mas virou para frente.

Atrás de mim uma menininha chutava minha cadeira e reclamava que não enxergava - com a sinceridade típica das crianças. Abaixei-me como pude na cadeira e ela parou de reclamar. Fiquei desconfortável, mas no final da peça a avó agradeceu.



Mesmo naquela posição incômoda eu virava a cabeça e tentava olhar o menino, sem distraí-lo, e o via assistir a apresentação com olhar curioso, ora sério, ora demonstrando não entender muito o que se passava, até que em alguns momentos esboçava um largo sorriso em que ostentava seus lindos dentes.

A peça teve de tudo um pouco. Com atores homens se vestindo de mulher para representar duas das detestáveis filhas do Rei Lear - algo engraçado e que não passava despercebido pela meninada, além de efeitos sonoros realizados na hora por um dos atores, com música e até neve. Uma hora que valeu cada centavo.

Deixamos a sala de teatro e não vi mais o menino. Quando estava atravessando a Av. Paulista em direção ao outro lado, vejo ele poucos metros à minha frente, com a mesma simplicidade anterior. Atravessou, virou à esquerda em frente ao banco Safra, e desceu com sua simplicidade a Rua Augusta.

E os funcionários da Livraria Cultura ganharam mais alguns pontos em meu conceito.

Joel dos Santos Leitão, 05 de Fevereiro de 2012.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pegando no tranco... mas correndo!!


É como se o ano apenas tivesse começado nesta semana.

Aproveitei o início de 2012 para ler alguns livros e fazer contatos, pois continuo com a situação profissional oscilando.

Talvez seja essa indefinição o que vem me deixando indisciplinado desde novembro de 2011 para cá. Fiz pouquíssimos treinos, e quando olho minha planilha de 2010 e 2011 sinto orgulho do corredor que fui, mas lamento o que me transformei em tão pouco tempo.

Sei, por exemplo, que neste mesmo período de 2010 eu pesava 92kg, e em 2011 90kg. Sei que já estava correndo em 2010 18km, e em 2011 30km brincando...

Bati os 102kg sem preocupação alguma com a alimentação, sem contar que a falta de treinos (pelas mais variadas desculpas) fez com que eu diminuísse muito o ritmo, numa média de no máximo 10km por treino. 

Daí li no twitter o corredor Ricardo Hircsh (@RiHirschRi) postar o seguinte:

"@RiHirschRi Promessa....domingo que vem estarei com 4kg a menos"

Enfim, coisa estranha essa, mas é como se o tico dissesse para o teco: 'Porque você não aproveita e vai no embalo? Você tá precisando!!'

E aí resolvi que meu 'deadline' seria a próxima segunda-feira, dia 06 de fevereiro. Nem sei se vou conseguir, mas a decisão já mandou para o espaço 2,5kg, e pela primeira vez em janeiro baixei dos três dígitos. Pensei até em escrever esse post no final de semana passado, mas aí se chamaria "Tentando pegar no tranco".


Hoje considero que já peguei no tranco. Ver a balança diminuir diariamente é bem legal. Mas melhor ainda é ver que com todas as presepadas que fiz continuo com um condicionamento físico de dar inveja. Corri segunda, quarta e hoje pela manhã, sempre na rua ou nos parques. Nos outros dias faço musculação, alongamento, abdominais e cama elástica em casa - outra decisão tomada: "não gastar dinheiro com corrida enquanto não tomar rumo profissional".

Daí que nesta manhã corri no Ibirapuera 12km, e após o almoço fiz um treino funcional: tirei o pó dos objetos, afastei móveis pra lá, móveis pra cá, passei pano com removedor e água no chão, esfrega daqui, esfrega dali, enfim, isso é o que chamo de pegar no tranco, e fiquei literalmente ensopado - valorize o trabalho da dona de casa.

Ah! Voltei a ler as revistas de corrida, deixando-as em lugares que chamam a atenção para sempre ler alguma matéria e me inspirar. Deu certo outrora e dará certo agora também.

Mas ainda é muito incipiente: apenas 5 dias. Tem muito chão e muita vida pela frente. Bora treinar?! E viva o Twitter...

Joel dos Santos Leitão, 03 de Fevereiro de 2012.