Será mesmo que é necessário correr com apoio de uma Assessoria Esportiva (AE)?

Aviso desde já que acho temerárias as respostas afirmativas, tanto quanto as negativas. Explico. Cada corredor tem que se conhecer suficientemente bem para perceber se precisa dum estímulo externo, ou se consegue encarar os desafios por conta própria.
Isso significa que é mais importante a frase socrática 'conhece-te a ti mesmo' do que todas as demais conjecturas acerca da imprescindibilidade de treinar com um preparador físico e acompanhado de um bando de corredores vestidos com camiseta da mesma cor.
Se você vai correr uma Maratona, tem que saber que é importante fazer ao menos dois treinos acima dos 33km, e que ainda assim há divergências entre os preparadores. Claro que se o objetivo for uma Ultramaratona ou um Ironman os treinos também terão que ter outra intensidade, e isso independe de uma AE.

Para mim, por exemplo, AEs não funcionam. O que, por evidente, não significa que sejam um mal, pois estou inserido num grupo determinado de corredores predispostos a treinar por conta própria. Já para outros colegas, elas são essenciais, e talvez nem conseguissem sair de casa sem receber a planilha de treinos.
Não sou melhor nem pior do que quem corre em AEs. O fato é que temos que nos conhecer. Ao longo de meus 4,5 anos de corrida fiquei 1 mês numa AE, e 6 meses em outra. E já fiz vários treinos com atletas que também correm sozinhos, havendo críticas muito parecidas com as que tenho.
Quando me preparava (sozinho) para a minha primeira Maratona comecei a sentir dores na sola dos pés e procurei 3 médicos. O primeiro, que logo descartei, me mandou fazer um alongamento, e percebendo como eu errava no exercício sentenciou: "Então você quer correr uma Maratona? Pois trate contratar uma AE, senão jamais você correrá uma Maratona..."

Enfim, será que uma AE corrigiria o meu erro de alongamento? Alguns dirão que sim, mas o fato é que à partir do momento em que há uma verdadeira massificação, ou exagerando, à partir do momento em que corredores são tratados como gado, as chances de pequenos desvios na prática dos exercícios sejam corrigidos é mínima.
Uma das reclamações mais comuns é que os preparadores das AEs não retornam emails, não dão conta de que determinados treinos fogem à realidade do atleta, e aplicam atividades em comum para pessoas únicas, com necessidades diferenciadas. "Ora, que contrate um 'personal' então!" - Sei que você pode ter pensado assim, mas será que não pode haver um meio termo? Ou somos gado, ou precisamos dum 'personal'?! Hummmm...
Já vi o caso da AE que te aceita com a missão de te treinar para uma Maratona faltando apenas 2 meses antes da prova. Evidente que não é preciso ser um especialista para saber que isso é impossível e que ele apenas quer seu dinheiro.

Outra AE te estimula a correr uma prova de proporções acima da média, uma Ultramaratona, dizendo que vai te dar todo o apoio, inclusive com a viagem, mas quando está chegando o grande dia diz que a esposa acha que 'é besteira fazer a viagem' apenas para acompanhar um único atleta, tendo em vista que outros que iriam correr desistiram...
Tudo bem, Joel. Você já mostrou que possui suas críticas às AEs, mas como é correr sozinho? Como isso é possível? Para quem já corre sozinho o que vou falar à partir de agora é chover no molhado, mas vamos lá.

Em primeiro lugar é preciso ter disciplina. Em outras palavras, é preciso estar a fim. É preciso querer treinar. Porque sem essa premissa básica, nem com AE a coisa anda. Ao menos é assim que funciona comigo. Quando estou disciplinado e fazendo jus ao título desse blog as coisas fluem naturalmente, e aí correr passa a ser um estilo de vida, muito mais do que um modismo ou uma necessidade imediatista.
Sou leitor assíduo de diversas revistas de corrida e já vi de tudo um pouco em várias delas. Às vezes xingo, me divirto, acho a matéria batida, mas aprendo muito lendo as revistas "Contra-Relógio", "O2", "Corredores SA", "Runner's", "Finisher" e "WRun", sem contar outras como "Tri Sport" e "Go Outside".
Além disso leio muitos livros de corrida, e aqui mesmo no blog há várias sugestões aí na lateral direita. Mas um grande apoio é o dado pelos amigos Twitters'run, grupo informal de corredores que se comunicam diariamente no Twitter. A troca de ideias é uma grande fonte de informações para treinar sozinho.

E se você tiver afinidade com algum corredor que treina a valer, aí sim aprenderá muito. Experimente por lá no twitter: "O que vocês acham disso?" Ou ainda: "Acham que tal tênis é bom?" - Pronto, pode ter certeza que choverão respostas e aí caberá a você analisá-las com critério e ponderá-las.
Nem adianta os defensores das AE me dizerem que um técnico profissional formado em educação física é uma fonte melhor do que uma rede social. Digo que isso é muito relativo. Com a quantidade de informações que leio, passou a ser difícil, por exemplo, aceitar fazer alongamento antes de correr. A 'Contra-Relógio' foi pioneira nessa discussão e ainda vejo com reticências quem obriga o corredores a alongar sem qualquer conversa sobre a importância ou não do alongamento antes da corrida.
E quando surgiu a discussão sobre correr descalço? Eu já havia lido muita coisa à respeito, e ainda via preparadores físicos, que só vivem disso, me dizerem que era um absurdo. Hoje muitos deles escrevem por aí que não é tão absurdo assim e que a corrida descalço corrige a pisada naturalmente, guardados os cuidados que a migração exige.
Essa falta de atualização de algumas AEs e seus profissionais decorre da sensação de que a quantidade de corredores exige resposta rápida e que assim não dá para individualizar e tratar de assuntos tão 'específicos'. Será?!
Evidente que sou tendencioso na resposta, mas é porque estou tratando do meu caso concreto. Tenho diversos amigos que adoram suas AEs, tendo um grande respeito por seus treinadores. É o caso da jornalista Yara Achôa, por exemplo, que sempre que surge essa discussão defende sua AE. Como também ocorre com o Twitters'run Fabiano Paixão, que tem a AE como algo importante para seus treinos.
Eu mesmo, quando me preparava para a Supermaratona de Rio Grande, achava bom ter uma AE e não ter que me preocupar com planilhas. Mas também adorei treinar para a Ultra Solo de Bertioga-Maresias sem ter que cumprir planilha e respeitando meus instintos.
Já George Volpão, do Paraná, conhecido corredor de duros desafios de montanhas, além de correr Maratonas, sempre correu por conta própria e nem pensa em AE.
Mas antes de sair por aí blasfemando contra as AEs, ou mesmo antes de dizer que treinar por conta própria é irreal, saiba que cada corredor, seja amador ou profissional, possui suas próprias características físicas e principalmente psicológicas, e que a decisão que hoje é boa, pode ser que amanhã mude.
Joel dos Santos Leitão, 09 de Fevereiro de 2012.